O Romantismo brasileiro: a busca por uma literatura com caráter nacionalista

Por Lais Carballal

Afinal, o que é literatura?

De fato, é incontestável que a literatura seja a manifestação artística das palavras, utilizando, muitas vezes, diversos recursos expressivos para compartilhar emoções e juízos de valor sobre o que ocorre no mundo. Ela evidencia textos que procuram expressar questões humanas através de suas palavras, mas ao pensar no humano, obviamente, ela precisa promover a compreensão da sociedade em que esse humano vive. Por isso, a literatura não é capaz de sobreviver sozinha. Para ela se consolidar, precisa estar caminhando, lado a lado, com o humano e a maneira como ele se relaciona com a sociedade. 

Desse modo, pode-se afirmar que a literatura, hoje, é um dos produtos mais ricos da cultura de uma sociedade. Através dela, que se mantém como um instrumento de comunicação e, portanto, interação, é possível conduzir inúmeros leitores a mundos que lhe causam estranheza e transmitir conhecimentos e culturas de uma comunidade.

É importante compreender o que é literatura e sua relevância para perpassar pelo movimento literário Romantismo (assim como todos os outros períodos de manifestações artísticas), pois, como receptores, é necessário estabelecer um elo com a tríade literatura-humano-sociedade para conseguir conquistar o conhecimento genuíno sobre esse conteúdo.

O Romantismo e o seu contexto sócio-histórico na Europa

Ao iniciar os estudos sobre os movimentos literários brasileiros, é relevante considerar que esses movimentos foram inspirados nos que ocorreram na Europa e, desse modo, torna-se necessário compreender, também, as questões históricas dos movimentos europeus.

O Romantismo, na Europa, iniciou na Alemanha e Inglaterra, chegando à França. Esses dados são importantes, pois há diversos contextos históricos que estão intimamente relacionados a esses lugares. Um exemplo disso é a Revolução Francesa e derivadas (1889-1799), que possui, como lema, “Liberdade, Igualdade e Fraternidade”. Esse lema não foi escolhido ao acaso, pois é uma resposta à realidade da França na época.

A França era um país rural onde havia muita desigualdade. A sociedade, na época, era dividida em três classes. Para compreender isso, preciso que você, querido leitor, imagine um triângulo, que será utilizado como uma analogia à estrutura da sociedade francesa. No seu topo, estava situado o Clero. No meio, os nobres. Na base, os trabalhadores urbanos, camponeses e a burguesia, que, no total, contabilizavam 97% da população francesa e eram os responsáveis em pagar os impostos que eram extremamente abusivos. Além de lidarem com as altas tributações, eles viviam em condições precárias, enfrentando, por vezes, a fome.

Esse modelo social gerou uma crise orçamentária que mobilizou o Estado a criar assembleias. Na primeira, intitulada Assembleia dos Notáveis, de 1787, apenas os nobres e o clero participavam e a solução proposta foi o aumento dos impostos, o que gerou mais revoltas. Na segunda, conhecida como Assembleia dos Estados Gerais (1789), houve a participação de toda população, porém o voto era realizado de acordo com a classe social. Sendo assim, o clero e a nobreza, por terem ideais parecidos, representavam dois votos contra um, formado pelos 97% da população. Dessa forma, o terceiro estado solicitou que houvesse o aumento dos deputados e que o voto fosse contabilizado por indivíduo. Na terceira assembleia, chamada de Assembleia Constituinte (1789), ocorre a sujeição da monarquia francesa à uma constituição. Nesse período, houve a Queda da Bastilha, que era o principal símbolo do Absolutismo, gerando legados importantíssimos, como a quebra do Antigo Regime e a consolidação do regime burguês.

No entanto, a Revolução Francesa não foi a única que marcou a história e o Romantismo europeu. Houve, também, a Revolução Industrial (1760) na Inglaterra, devido à criação da máquina a vapor, caracterizando o pioneirismo inglês nesse movimento.

A Revolução Industrial gerou diversas dualidades, como, por exemplo, trabalho x capital e operário x burguesia. Nesse período, houve a ascensão política da burguesia, que detinha, também, o capital. Foi um período marcado por explorações, visto que o proletariado, que trabalhavam nas fábricas dos burgueses, recebiam um salário baixo e péssimas condições para realizar suas atividades. Dessa forma, percebe-se que as longas horas de trabalho não estavam associadas ao acúmulo de riqueza, muito pelo contrário.

Esta revolução foi primordial no crescimento das cidades, na consolidação do consumismo, na venda de mercadorias a custo baixo, na intensificação da desigualdade social e, por último, mas não menos importante, no avanço da poluição. 

As gerações do Romantismo

Por diversas vezes, os estudantes acreditam que aprender a literatura do Romantismo não possui grandes obstáculos. Isso porque, ao longo dos anos, tal movimento literário foi comparado, pelo senso comum, com o pagode anos 90. De certa forma, a melancolia, o abandono, a solidão e as crises existências do pagode dos anos 90 está presente em momentos do Romantismo, mas esse movimento não se resume a apenas isso. Afinal, por ser um movimento fragmentado em três gerações, suas características nem sempre são contempladas uniformemente.

Nesse sentido, torna-se necessário desbravar as três gerações do Romantismo Brasileiro:

A primeira geração do Romantismo

Com a invasão de Portugal por Napoleão, a Coroa Portuguesa se muda para o Brasil em 1808 e, dessa forma, o Brasil se eleva de Colônia para categoria de Reino Unido. A vinda da Coroa Portuguesa modificou a realidade do território brasileiro, pois houve a criação de escolas de ensino superior, fundação de museus e bibliotecas e o surgimento da imprensa.

Destarte, com desenvolvimento urbano, houve condições para a criação de um público leitor, o que favorecia o surgimento de uma produção literária essencialmente brasileira. Dessa oportunidade, os intelectuais e artistas começaram a se dedicar a criar uma cultura que fosse de fato brasileira, por meio das palavras propagadas através da literatura.

O desejo de criar uma literatura de caráter nacional demonstrou o sentimento nacionalista dos artistas que passaram a valorizar questões nacionais nas suas escritas, como a fauna e flora brasileiras. Como uma atitude importante, os escritores escolheram o índio como herói nacional, inspirado nos cavaleiros medievais e que representava o mito do bom selvagem, que consiste numa tese do filósofo franco-suíço Jean-Jacques Rousseau em que há a crença de que o ser humano é puro e inocente em seu estado natural, mas a sociedade insere nele valores e hábitos que o conduz ao conflito. 

Sendo assim, as principais características desse movimento são: nacionalismo, presença do índio como herói nacional, a natureza sendo exaltada como confidente e espaço de refúgio, egocentrismo e a idealização do amor e da mulher. Seus principais autores são Gonçalves Dias, que implantou e solidificou o Romantismo no Brasil, e Gonçalves de Magalhães que introduziu o movimento com a obra Suspiros Poéticos e Saudades, de 1836. As principais obras são I. Juca Pirama e Os Timbiras, ambos do autor Gonçalves Dias. Segue, abaixo, para melhor contextualização, um trecho de I. Juca Pirama:

Meu canto de morte,
Guerreiros, ouvi:
Sou filho das selvas,
Nas selvas cresci;
Guerreiros, descendo
Da tribo Tupi.

(Disponível em: https://www.culturagenial.com/i-juca-pirama-de-goncalves-dias/)

A segunda geração do Romantismo

Após a geração nacionalista – também conhecida como indianista e religiosa, a literatura do Romantismo tomou novos rumos, pois houve um desinteresse, da parte dos artistas, pela vida político-social do Brasil da época. Então, como forma de protesto ao mundo burguês, eles eram pessimistas, entediados, viviam à espera da morte e formavam tribos urbanas, o que fez com que esses artistas ficassem conhecidos como “poetas da geração perdida”. Muitas vezes, diante de todo pessimismo e melancolia, os artistas se tornavam depressivos, buscando a morte e os vícios como forma de sobrevivência, consolidando, então, o apelido da segunda geração do Romantismo: Mal-do-século.

Dessa forma, indo na contracorrente das propostas apresentadas na primeira geração, a poesia do mal-do-século trabalhava o medo de amar e a idealização da mulher, em que ela sempre era reverenciada como uma virgem – sendo, inclusive, comparada a anjos e crianças.

Seus principais autores são Álvares de Azevedo, que escreveu a Lira dos Vinte Anos e Noite na Taverna; Casimiro de Abreu, autor de Amor e Medo e As Primaveras; Fagundes Varela, que escreveu Cantos e Fantasias e Junqueira Freire,autor de Inspirações do Claustro. Segue, para desfrute, um trecho de Lira dos Vinte Anos:

(…)Só levo uma saudade – é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.
Só levo uma saudade – é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas …
De ti, ó minha mãe, pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!
De meu pai… de meus únicos amigos,
Poucos – bem poucos – e que não zombavam
Quando, em noites de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.
Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda,
É pela virgem que sonhei… que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!
Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores…
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores. (…)

(Disponível em: http://origin.guiadoestudante.abril.com.br/estudar/literatura/materia_414740.shtml)

A terceira geração do Romantismo

A terceira geração, conhecida como Condoreira ou Hugoana, era composta por artistas comprometidos com a causa abolicionista e republicana, o que levou ao surgimento da poesia social. A finalidade dos poemas era convencer o leitor-ouvinte e conquistá-lo para a causa defendida. 

Nesse período, tem-se Castro Alves, com as obras Vozes d’África e O Navio Negreiro, e Sousândrade, com Harpas Selvagens. Segue, abaixo, um trecho de O Navio Negreiro:

São os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto A tribo dos homens nus…
São os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidão. Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje míseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razão. . .

(Disponível em: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000068.pdf)

Portanto, fica evidente que é necessário romper com as reproduções do senso comum sobre esse importante movimento literário, abordado em diversos concursos do país, pois ele é muito mais do que solidão, abandono e crises existenciais, mas também nacionalismo, subjetivismo, luta social e comprometimento, dependendo da sua geração.

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